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Introdução
"... Fizemos o que deveria ser feito. Aniquilamos o mundo diante de seus ouvidos e destruímos a CBS. Mas vocês ficarão aliviados ao saber que tudo não passou de um entretenimento de fim-de-semana. Tanto o mundo como a CBS continuam funcionando bem. Adeus e lembrem-se, pelo menos até amanhã, da terrível lição que aprenderam hoje à noite: aquele ser inquieto, sorridente e luminoso que invadiu sua sala de estar, é um representante do mundo das abóboras e, se a campainha de sua porta tocar e ninguém estiver lá, não era um marciano... é Halloween!"

Foi com essa frase que Orson Welles terminou o décimo sétimo programa semanal de adaptação de livros para o rádio, no Mercury Theatre On The Air, da noite de 30 de outubro de 1938, véspera do Dia das Bruxas, transmitido pela estação de rádio CBS. A guerra entre terráqueos e marcianos foi a “travessura” de Welles para aquela data. No entanto, essa travessura foi marcada pela história como o maior evento radiofônico de comoção das massas. Ali, ficou provada a influência que o veículo podia exercer sobre as pessoas e, conseqüentemente, seu potencial tático.
A estratégica
A grande arma estratégica de Welles e dos roteiristas John Houseman e Howard Koch foi o fato de usarem, em sua adaptação, todas as características do rádio-jornalismo, praticadas na época: reportagens externas, entrevistas com testemunhas que estariam vivenciando o acontecimento, opiniões de especialistas e autoridades, efeitos sonoros, sons ambientes, gritos. Os ouvintes já estavam acostumados e, sobretudo, crédulos em relação a esse formato.
O padrão dramático que foi utilizado para o desencadeamento da obra radiofônica foi possível em função do desenvolvimento tecnológico, que permitia transmissões dos acontecimentos jornalísticos as vivo desde os anos 20. Talvez uma das mais importantes inovações tenha sido o telefone, que se tornou um instrumento fundamental para o sucesso das coberturas rádio-jornalísticas.
Segundo Gisela Swetlana Ortriwano, a CBS calculou na época que o programa foi ouvido por cerca de seis milhões de pessoas. No início da apresentação, a CBS anunciou tratar-se do rádio-teatro semanal, com a adaptação de uma das obras de H.G. Wells.
O problema, é que metade dos ouvintes passou a sintonizar a CBS quando o programa já havia começado, perdendo essa explicação introdutória. Esse fato foi motivado, em primeiro lugar, porque às oito da noite, alguns programas de outras emissoras, iniciados às sete horas, ainda não haviam terminado.
Em segundo lugar, e podendo ser considerado o fator preponderante, porque os ouvintes do Chasen and Saborn Hour, campeão de audiência do horário na época, só passaram a ouvir “Guerra dos Mundos” depois de onze minutos do seu início, que foi quando um cantor entrou no ar, substituindo o apresentador do programa. Era comum, nesse momento, que os ouvintes trocassem de estação para ouvir um pouco do que estava sendo transmitido nas outras estações.
Em função disso, pelo menos 1,2 milhão de pessoas tomaram a dramatização como fato, acreditando que estavam mesmo acompanhando uma reportagem extraordinária. De acordo com os relatos da época, quem estava na zona rural correu desesperadamente para a cidade, e cruzou com quem estava na cidade e procurava refúgio no campo. Os telefones das delegacias de polícia não paravam de tocar e os gritos de socorro ecoavam pelas ruas.

A tática usada por Welles e seus companheiros teve, portanto, grande colaboração da rotatividade da audiência e a credulidade, sem questionamento, daquilo que era considerado notícia.
O poder da persuasão
A transmissão de “Guerra dos Mundos” foi tão marcante e significativa, que gerou o programa de Defesa Civil dos Estados Unidos, foi usada por Hitler em um discurso, como exemplo da fraqueza dos Estados Unidos, e foi objeto do primeiro estudo acadêmico sobre histeria em massa.
O mundo se encontrava às portas da Segunda Grande Guerra e já ouvia os discursos de Hitler, esse sim, grande usuário do rádio para propagação de sua doutrina. O terror, de alguma forma, já estava instaurado e o medo de invasões já era um fato, mas não se pensava que viriam de Marte, e sim de algum país totalitarista.
Condições tecnológicas, credibilidade do veículo e momento histórico. Soma-se a isso o fato de que a mídia impressa era para poucos, que ainda não existia a televisão e que o rádio era um veículo de massa e de audiência coletiva, na época (comunidades inteiras se reuniam em torno do rádio para discutir sobre os assuntos trazidos pela “caixa mágica)”.
Com tantos instrumentos de certificação das notícias, o questionamento era atribuído àqueles que não acompanhavam a evolução das mídias, algo similar aos que duvidaram da transmissão televisiva da chegada do homem à Lua.
Portanto, da transmissão da “Guerra dos Mundos” pela CBS, pôde-se observar que o rádio não era apenas um veículo de informação ou mesmo de entretenimento, mas, antes, um veículo poderoso de manipulação.
A indústria do pânico

Era de se esperar que a notoriedade de Welles tornasse impossível a repetição do efeito, com uma nova transmissão de outra “Guerra dos Mundos” nos mesmos moldes. Em 12 de novembro de 1944, no entanto, uma transmissão, em Santiago, Chile, que incluía um ator interpretando o Ministro do Interior, levou à mobilização de tropas de infantaria. Cinco anos depois, em 12 de fevereiro de 1949, uma transmissão da Radio Quito, com atores interpretando políticos locais, jornalistas e testemunhas, levou o povo a incendiar a rádio, matando 15 pessoas.
Nos dois casos, os mesmos elementos da transmissão de 1938, a intrusão na realidade com a interrupção da programação com um noticiário, as vozes de autoridades locais conhecidas, o nome de cidades próximas; e a credibilidade do rádio como fonte de informação, foram capazes de levar o público a acreditar que suas cidades estavam sendo invadidas e precisavam ser protegidas.
Assim como em 1938, os fatos mostraram que não é preciso criar pânico generalizado. Pequenos grupos de humanos iludidos já são o suficiente para o desastre.
Hoje o rádio ainda é utilizado como um forte veículo doutrinatório, tanto nos meios oficiais como clandestinos, para qualquer tipo de assunto, desde os horários políticos obrigatórios, que utilizam com consciência o formato jornalístico, como forma de dar veracidade às “notícias”, até às rádios de propagação religiosa, passando pelas rádios ditas comunitárias.
O poder do veículo é usado como um assalto à credulidade onde os menos informados servem como massa de manipulação dos mais diversos interesses.
Ao longo dos anos essa indústria da boataria e do pânico acabou por criar filhotes em outras mídias, como a televisão e mais recentemente a Internet, essa desovando milhares de e-mails anunciando crimes mirabolantes e curas milagrosas com a mesma facilidade e rapidez. Os meios crescem e se modificam, mas a ingenuidade parece ser perpétua.
É incrível!

criado por Vitor
00:04:41